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O dia em que desisti do flamenco

O valor dos pés (ou o dia em que desisti do flamenco.)

Artigo escrito por Anna Lou Olivier (Lou de Olivier) e publicado em 2016 no site Luz do Eterno, com conclusão incluída em 16 de novembro de 2018.

Balé aos 3 anos de idade

A música e a dança nasceram comigo, um pouco por influência do meu pai, que dançava muito bem tango e bolero e da minha mãe que tocava violão e cantava muito bem, aliás esta aptidão para o canto e o violão já vinham de meu avô materno… Um pouco também por meu próprio aprendizado ou vivência melhor dizendo.

Eu nem andava direito ainda e já estava dançando. Contavam-me que, sempre que ligavam o rádio ou vitrola (sou da época da vitrola rsss) com uma boa música, eu engatinhava até algum móvel, me esforçava para me levantar e, agarrada ao móvel, eu me movia dançando. Isso se aplica também ao canto, eu mal falava direito e já estava cantando. Estas minhas aptidões me levaram à TV com apenas dois anos e meio, aos três anos gravei já estava lançando meu primeiro compacto simples como cantora profissional e aos quatro anos eu já estava preparando para gravar a trilha sonora da novela “A pequena órfã” (por motivos que relato em outro artigo, a trilha foi proibida), já ganhava meu primeiro troféu, sendo também uma das primeiras crianças a gravar vídeo-tape… Hoje faço parte do Museu da TV, por causa disso…

Balé aos 13 anos de idade

Bem mas com este talento precoce, nunca me imaginei sem dançar ou cantar. Minha vida, por mais difícil e sofrida que seja (sempre digo que “disfarço bem”), sempre foi vivida entre músicas e danças diversas (clássico, contemporâneo, flamenco, danças folclóricas, etc.). Cantar e dançar sempre foi tão normal em minha vida que até nas atividades diárias como lavar o chão da cozinha ou arrumar a cama eu desenvolvia passos de dança e sempre cantarolando alguma música com ou sem rádio… Não imaginam a diversão que é dançar com um rodo ou vassoura ou fazer spaccata (espacate) no chão ensaboado. O trabalho rende, você nem percebe que está trabalhando e é o melhor jeito de dançar, mas não tente fazer em sua casa, a menos que tenha experiência, pode sofrer um grave acidente….

Foi assim que um dia dançando alegremente (mas para relaxar diante de uma situação extremamente triste que eu vivia) eu acabei descobrindo que um dos gatos do meu irmão conseguia fazer uns passos de expressão corporal. A partir dai, comecei a desenvolver o que eu chamei de “Dançando com animais” numa forma de ligar até mesmo ao tratamento de crianças com deficiência.

Toda esta bagagem me fez também desenvolver técnica diferente de Biodança, que chamei de lifedance e outras danças terapêuticas. Posso dizer que sei dançar a maioria dos ritmos de danças de palco e algumas de salão. Mas, de todas as paixões, sem dúvida o flamenco sempre foi a maior. Porém uma particularidade com esta modalidade de dança me fez refletir. Desde criança, em todas as vezes que eu me matriculava em um curso, acontecia algo que me fazia parar. Eu pegava facilmente os passos mas logo a professora tinha algum problema particular ou a academia encerrava a turma, enfim, sempre acontecia algo que me impedia continuar.

Lou flamenco

Interrompi o flamenco por muitos anos, seguindo por outras modalidades como ventre e tribal, em alguns períodos me afastava de todas as modalidades mas sempre voltava em algum momento. Em 2010 voltei ao flamenco mas dois meses após a volta, tive um acidente que me fez parar por mais alguns anos. No início de 2014 eu decidi que voltaria em definitivo ao flamenco. Fiz um curso de férias e, na sequência, matriculei-me no curso regular. Pela primeira vez consegui ficar mais de dois meses nas aulas mas um acontecimento particular me afastou. E ainda vivi o impasse do novo sapato, meu sapato é bem velho, precisava de um novo sapato mas sou vegana e não há possibilidade de conseguir um sapato vegano de flamenco… Depois de muito refletir sobre isso, decidi retornar quase um ano após já no curso de férias de julho e decidi seguir com meu sapato velhinho mesmo mas um acidente automobilístico me fez afastar-me por mais um tempo. E, recentemente, após pensar em retornar ao flamenco, cai da escada e quebrei um pé e tive espécie de entorse no outro. Melhor explicando, fraturei o 3º metatarso e rompi o ligamento de um pé e tive entorse no outro pé.

Meu pé já com a 3ª tala

Além da grande dor, da limitação, de depender das pessoas para tudo e de um drama particular que se desenvolveria por causa desta queda (me engessaram de forma errada e acabei quase perdendo o pé), o pensamento que mais me atormentou no pronto-socorro foi: “Flamenco, nunca mais”… Não que eu seja pessimista, sei que, em breve poderei andar normalmente (de forma moderada e regada em Fisioterapia mas poderei) e deixo claro que esta minha decisão é particular, sei que o flamenco desenvolve memória, coordenação motora, fortalece musculatura, alinha postura e tem muitos outros benefícios mas, como digo em terapia, cada caso é um caso e, depois de quebrar o pé com um tombinho tão tolo não terei a mínima condição de expor meus pés a nenhum atrito, não terei mais coragem de fazer um golpe ou planta, enfim, não vou mais fazer movimentos de impacto. .

Pela primeira vez tomei consciência dos meus pés, entendi enfim que eles não são apenas dois acessórios da minha dança, eles são partes importantíssimas do meu corpo e eu preciso tratá-los bem. E tratá-los bem inclui não forçá-los a determinados passos porque, sem eles, eu tenho que me locomover de muletas, de cadeira de rodas, forço meus outros membros, tenho dificuldades em descer e subir escadas e tantos outros impedimentos que só percebi depois deste acidente.

Neste momento, voltar a andar sem precisar de muletas ou cadeira de rodas já será a glória, este é meu grande sonho no momento. Sei que uma grande luta me espera para conseguir voltar a andar. E, ao conseguir, caminhar na areia, andar calmamente pela grama, sentir novamente meus dois pés no chão, só isso já me fará imensamente feliz… Dançar, daqui em diante, será lucro. E este lucro não incluirá nenhum tipo de sapateado…

Terei saudade das aulas, das danças, das coreografias… Mas a vida, às vezes, é feita de saudades também…

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Como podem perceber, foi uma grande luta. Algo que poderia ser resolvido em 15 dias, se arrastou por mais de três meses e eu, até hoje, tenho sequelas. Tudo isso porque, a primeira médica (cubana) disse que era apenas entorse e deveria apenas colocar gelo. O segundo médico (brasileiro) fez diagnóstico correto, mas cinco dias depois, outro médico (também brasileiro) mandou me engessar sem sequer me examinar… Meu pé necrosou e precisei de 22 sessões de fisioterapia para voltar a mexer o pé, que ficou deformado. Ainda arrisquei voltar às aulas de flamenco, mas, embora eu conseguisse fazer os passos, não conseguia mais calçar os sapatos. Teria que mandar confeccionar um sapato especial com salto menor e adaptado ao formato “torto” do meu pé… Dói muito saber que, por erros médicos, eu não posso mais fazer o que mais gostava, dançar. Ainda danço ventre e outras modalidades mas não com a desenvoltura que eu tinha antes. Se eu pudesse voltar, de verdade, no tempo, eu voltaria um dia antes da minha queda e nunca cairia da escada, jamais fraturaria o pé… Simples assim!

Anna Lou Olivier (Lou de Olivier)

2 anos depois, meu pé está assim (2018)
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