Sempre que alguém escreve ou fala sobre um determinado acontecimento, tende a abordar só sua versão, a forma como entendeu ou vivenciou o fato. Assim, torna-se tendencioso qualquer comentário, pois não mostra outros ângulos, versões e visões. Neste blog eu sempre mostro diversos ângulos e versões e só depois emito minha opinião. Assim pretendo discorrer sobre a grande polêmica que se instalou a respeito da comemoração do golpe de 1964. Leia este artigo e entenda o que tanto incomoda sobre este período da nossa história.

Antes de abordar o tema principal, devo lembrar que, durante os 21 anos de Ditadura no Brasil, foram mortas, comprovadamente, 293 pessoas, outras 131 desapareceram. Neste número de mortos, estão incluídos quatro militantes da ALN-Molipo que foram mortos pelos próprios “companheiros”, também inclui os que morreram de arma na mão no Araguaia, ou seja, em troca de tiros. O terrorismo de esquerda matou nada menos do que 119 pessoas, muitas delas sem qualquer vínculo com a luta política, outros foram mortos por “justiçamento” entre eles mesmos, por terem dedurado ou traído de alguma forma os companheiros. Levando em conta que, a média de mortes naquela época era de 711.742 (quase setecentas e doze mil) mortes por ano (dados do ano de 1979), deveríamos questionar porque tanta ênfase nestas 543 mortes e nenhuma observação em outras mais de 700 mil. Outro questionamento deveria ser, se as mortes  e desaparecimentos comprovados são 543, porque desde 2002, há comprovadamente 212.410 pessoas já indenizadas e mais de 75 mil pedidos de anistia protocolados (isso só até 2016, não se tem dados após isso). Então, por que não se questiona nada disso? Talvez porque este período tenha ficado obscuro, com cada um relatando suas experiências ou devaneios ou mesmo relatos regados a orientações estratégicas. Se a questão é não comemorar “mortes”, devemos deixar de comemorar natal, réveillon, carnaval, épocas que matam milhares de pessoas. Eu mesma tive parte da minha família morta entre natal e ano novo. Mas a questão da suposta comemoração de 31 de março vai além disso. Vamos analisar?

Em primeiro lugar, o Presidente Jair Messias Bolsonaro enviou (ou mandou enviar) uma mensagem a ser lida nos quartéis no dia 31 de março. Este dia é chamado por uns como “Golpe” por outros como “Revolução” e por outros como “Movimento”. Seja qual for o nome utilizado para definir este dia, importante lembrar que foi o dia em que os militares, atendendo a um pedido quase unânime do povo brasileiro, teoricamente tomaram o poder em 1964. Digo teoricamente porque, após a intervenção militar, o Congresso Nacional declarou o cargo de Presidente da República vago em 02 de abril. E no dia 09 de abril houve uma eleição que, por votação indireta, elegeu o General Castelo Branco. E ele só tomou posse em 15 de abril de 1964. Portanto, os militares não deram nenhum golpe, eles apenas cumpriram ordens e atenderam aos anseios da população, abrindo caminho para a eleição de Castelo Branco. 

Em favor desta ocasião, Bolsonaro afirma que ordenou aos QUARTÉIS “Rememorar, rever, ver o que está errado, o que está certo. E usar isso para o bem do Brasil no futuro”. Bem, se a ordem foi para os QUARTÉIS, é incompreensível tantos artigos, posts, vídeos e comentários descabidos. Da mesma forma como os quartéis não se metem na educação que cada um dá aos seus filhos dentro de casa, nenhum civil pode questionar o que se faz dentro dos quartéis. Isso não impede um civil de comemorar esta importante data, se quiser, fique isso bem frisado. Mas o comunicado se dirigiu aos quartéis. Porque, deste 2011, os militares estavam impedidos de qualquer menção a esta data pois dona Dilma, que foi terrorista e diz-se torturada pela Ditadura, fez a proibição. Bolsonaro apenas devolveu aos militares o direito de relembrar seus feitos. Foi um comunicado de militar para militar.

Manifestantes na Marcha da Família com Deus pela Liberdade em 19 de março de 1964 na Praça da Sé, em São Paulo. Fonte: Arquivo Nacional/Correio da Manhã.

Insensíveis a este importante detalhe, inúmeros “jornalistas”, alguns artistas e diversos curiosos entopem o YouTube, blogs e as redes sociais com seus comentários e achismos. Em sua maioria querendo distorcer fatos e mostrar a infantilidade ou incompetência de Bolsonaro que, parece, muitas pessoas não entenderam ser ele o novo Presidente. Em alguns momentos, parece-me (friso que este é um detalhe que EU percebo) o próprio Bolsonaro não age como Presidente. Como por exemplo, quando vai a um cinema, dando margem a inúmeros artigos e comentários que denigrem a imagem dele, quando poderia alugar ou comprar o filme e assisti-lo tranquilamente em seu lar. Há momentos para se aproximar e momentos para se isolar. Mas isso é detalhe que eu noto. Se ele se sente bem fazendo isso e não se importa com a grande campanha da mídia para derrubá-lo, viva a sétima arte junto ao povo!

Mas voltando ao tema principal. Comemorar é diferente de rememorar. E seja um ou outro, a questão é que foi enviado aos quartéis que, desde 2011 estavam proibidos pela Dilma, de fazer qualquer alusão a esta data. E não justifica tantos “mimimi”, já que a ordem não abrange os civis. Uma reclamação quase unânime dos contrários a esta “lembrança” é de que foram perseguidos naquela época. Embora eu respeite suas versões, cada um se lembra do que viveu, eu vivi aquela época, inclusive, fui a primeira cantora a ter uma música censurada. E, na sequência, tive todo um LP censurado também. Mas já expliquei em artigos e vídeos que a perseguição que sofri foi mais artística do que política. Ao final, indicarei links que melhor explicam isso. Eu fui artista naquela época, lembro da grande liberdade que se tinha para cantar, inclusive foi nesta época que surgiram grandes festivais de música. Alguns cantores tiveram problemas com suas músicas por causa da ditadura? Sim, mas eu tenho algumas dúvidas.

Artes censuradas:

Livro Calabar – 3ª Edição

Uma das dúvidas é sobre a música Cálice ou subentendido “Cale-se” de Chico Buarque. Esta música é citada até hoje como tendo sido censurada. Porém, em uma peça teatral chamada “Calabar, o elogio da traição” que também foi teoricamente censurada, se cantava a referida música. Calabar foi um senhor de engenho que se aliou aos holandeses que invadiram o Nordeste brasileiro, por isso é considerado o maior traidor da história brasileira. Excelente enredo para uma peça teatral, não é? Com tantos temas importantes, parece piada uma peça com este enredo. Bem, esta peça foi censurada em 1974, mas foi liberada anos depois,para maiores de 14 anos. Em 1978, eu estava desmemoriada pelo afogamento e, desenganada pela medicina, fui fazer um curso de teatro para exercitar a memória. Neste curso, nós representávamos peças clássicas e também peças em cartaz no momento. Meu primeiro papel foi a Laura (À margem da vida, Tennessee Willians), na sequência interpretei Anne Frank (O diário de Anne Frank) e, em seguida fui a Barbara (Calabar). Por isso me lembro bem. Isso foi em 1979 e este texto estava disponível em livro impresso. Podia ser comprado em qualquer livraria. E também já estavam ensaiando a versão profissional que seria encenada neste mesmo ano. Tinha uma música chatíssima “Cala a boca, Bárbara” que ia sendo cantada, omitindo algumas sílabas no final, assim: “Cala a boca, Bárbara”, “Calaboca, Barbara”, “Cala…Barbara”, “Cala…Bar…”, assim terminava a peça. Lembro que assisti esta peça porque queria montar minha personagem… Agora vem dizer que proibiram? Sim, proibiram em 1974 e liberaram em 1979/1980. Precisa de indenização por causa disso? Precisa de estardalhaço? Precisa de dramalhão? Penso que não até porque foi um dos piores enredos que já tive contato. E olha que eu conheço muitos textos e roteiros nacionais e internacionais.

Tangas e topless :

Em 1964, o Designer Rudi Gernreich, lançou o primeiro monoquíni, precursor do Topless. Apesar de muitos protestos, a moda foi se instalando e, em meados da década de 1970, era comum as adolescentes e jovens usando só a parte de baixo do maiô, também era comum o uso de tangas bem ousadas na praia. Obviamente usava-se uma saída de praia e só se mostrava a tanga ou o topless já estando na areia da praia ou na água do mar. Nunca vi ninguém ser assediada, menos ainda presa por isso. Eu mesma, usei muitas tangas. Eu tinha várias tangas de diversas cores mas, a que eu mais gostava era uma de cor laranja. Até ganhei o apelido de “garota da tanga laranja”. O máximo que acontecia era os rapazes pararem de jogar bola quando nos viam passar, alguns assoviavam… Só isso.

Drogas e repressões: 

Em uma de minhas classes escolares, quando cursei magistério (atual pedagogia), quase todos os alunos foram mortos em acidentes ou em overdoses. Era uma turma da pesada, eu era praticamente a única que não usava drogas. Diziam que eu era louca ao natural, nem precisava de droga alguma… No entanto, nunca tivemos problemas com “batidas policiais”. A maioria dos alunos usava suas drogas em casa, não se usava nada na escola e desde que não fizessem badernas, iam e vinham tranquilamente. Na sequência, na faculdade de Artes, participava de grupos de teatro tanto universitário quanto profissional. Andávamos de madrugada pela cidade, ríamos, nos divertíamos e NUNCA fomos assaltados por bandidos e NUNCA tivemos problemas com policiais. Porque os policiais prendiam baderneiros, bandidos, gente que prejudicava de alguma forma a sociedade. E não os “teatreiros” como nós. 

O que os militares fizeram de bom?

Outro detalhe importante. É preciso lembrar que, a época do governo militar foi bastante produtiva. Foram muitas as ações desta época como por exemplo:
Criação da Nuclebrás e subsidiárias; 
Criação da Embratel e Telebrás (foi nesta época que se instalou orelhões nas ruas, antes só se falava via telefone se tivesse instalado em casa ou na empresa); Construção das Usinas Angra I e Angra II; Desenvolvimento das Industrias Aeronáutica e Naval (em 1971 o Brasil foi o 2º maior construtor de navios do mundo); Implantação do Pró-álcool em 1976 (em 1982, 95% dos carros no país rodavam a álcool); Criação da Eletrobrás; Construção das maiores hidrelétricas do MUNDO: Tucuruí, Ilha Solteira, Jupiá e Itaipú; Exportações cresceram de 1,5 bilhões de dólares para 37 bilhões; Rede de rodovias asfaltadas, de 3 mil para 45 mil km; Redução da inflação galopante com a criação da Correção Monetária;  Crescimento do PIB de 14%; Criação da INFRAERO, proporcionando a criação e modernização dos aeroportos brasileiros (Galeão,

Presidente Figueiredo

Guarulhos, Brasília, Confins, Campinas – Viracopos, Salvador, Manaus); INPS, IAPAS, DATAPREV, LBA, FUNABEM;  Criação do FUNRURAL – a previdência para os cidadãos do campo; Programa de merenda escolar e alimentação do trabalhador; Criação do FGTS, PIS, PASEP; Criação da EMBRAPA (70 milhões de toneladas de grãos); Criação da EBTU;  Implementação do Metrô em São Paulo e em outras localidades; Construção da usina hidrelétrica de Boa Esperança, no Rio Parnaíba; Construção da Ferrovia do Aço (de Belo Horizonte a Volta Redonda); Construção da Ponte Rio-Niterói; Construção da rodovia Rio-Santos (BR 101);

Entre outros feitos está a Lei da Anistia Política que foi promulgada em 1979, no governo do presidente João Baptista Figueiredo, para reverter punições aos cidadãos brasileiros que, entre os anos de 1961 e 1979, foram considerados criminosos políticos pelo regime militar.

A lei garantia, entre outros direitos, o retorno dos exilados ao País, o restabelecimento dos direitos políticos e a volta ao serviço de militares e funcionários da administração pública, excluídos de suas funções durante a ditadura.

Penso que este ato foi insano porque, inclusive, deu margem para, em 2002, ampliarem os direitos dos anistiados que passaram a receber indenizações, em prestação única ou mensal, variando de acordo com cada caso. Nesta época também houve um enorme aumento de “vítimas”. Até então eram 494 vítimas comprovadas. A partir da liberação de indenizações, o número cresceu de forma exorbitante. Até 2016, já havia sido pagos mais de cinco bilhões de reais em indenizações para 212.410 pessoas e já existiam mais de 75 mil pedidos de anistia protocolados. Até a viúva e filhas do Cel Ustra receberam e respondem processos com pedidos de indenização por supostos torturados por ele. Parece aquela piada do avião que levava piloto e três passageiros, que caiu em um cemitério. E até o momento já foram resgatados cem corpos… Assim foi o mesmo com as 494 vítimas iniciais que já se perde a conta de quantos hoje estão indenizados e/ou reivindicam indenizações. O gráfico de indenizações cresceu até 2018. Em 2019, começou a apresentar uma queda. Que bom! Sinal que ainda resta uma esperança no ar…

Saiba mais:

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Lista dos beneficiados pela “bolsa ditadura”. Atenção: Este arquivo, em PDF, contém 3862 páginas e pode demorar um pouco para abrir, dependendo da sua Internet. Mas vale a pena conhecer  todos_beneficiados_lei10559

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Viuva e filhas de Ustra, respondem processo, clique aqui e clique aqui

Eduardo Bolsonaro explica de forma simples como foi o período de 31/03 a 15/04/1964

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Tanga, clique aqui

Calabar, peça teatral de Chico Buarque e Ruy Guerra, clique aqui

Topless em 1972 – Rio de Janeiro, clique na foto e acesse o link da matéria.

O primeiro "topless' de Ipanema, isto é, do Brasil, em janeiro de 1972.

 

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