Eu te convido a ler este meu pequeno artigo e refletir sobre o que, de fato, nos mantém vivos.

Eu a conheci há muitos anos num grupo de poetas. Era uma época em que a Internet estava começando no Brasil e, apesar de a conexão cair a todo momento, fazíamos amizades verdadeiras, invadíamos madrugadas “poetando” e saíamos do mundo da fantasia para provocar encontros reais em criativos saraus que varavam a madrugada.

O tempo foi passando, a Internet foi mudando. Os grupos e fóruns de poetas deram lugar às redes sociais, a Internet grátis trouxe um outro tipo de público. Já não encontrávamos mais bons contatos, em algumas situações, éramos até vítimas de golpes. Eu mesma fui vítima de dois golpistas que se apresentaram como amigos de meus amigos e, quando fui checar, era tarde. Por tudo isso, passei a usar a Internet apenas para contatos comerciais e adicionar apenas as pessoas que conhecia pessoalmente ou vinham por indicação ou ainda os que atuavam em alguma produção de meus textos. Claro que sempre vem o amigo do amigo e a gente acaba por aceitar o convite, mas o cuidado em manter a privacidade era e ainda é constante. Assim, fomos nos distanciando, não só em relação a esta amiga mas a tantos que o tempo e o excesso de afazeres dispersaram.

Algumas vezes, ainda teclamos e ela estava sempre deprimida. Quase nunca desabafava. Preferia desabafar em poemas que eu sempre elogiava, assim como ela elogiava os meus escritos. Pelo que consegui entender, era um amor que a fazia deprimida e quase sempre a derrotava. Às vezes, eu a aconselhava a se desprender, a buscar nela mesma o amor que tanto necessitava, mas é difícil convencer alguém que parece necessitar de um amor externo. Complexo explicar isso, nem tentarei.

Cada vez mais atarefada e distante, eu não percebi a postagem que ela fez em junho deste ano, uma pessoa esfaqueada pelas costas, jorrando sangue. E uma outra dizendo que sua dor era incompreensível. Eu também não percebi seu silêncio após esta postagem. Eu estava ocupada com algumas palestras internacionais que eu faria, publicações, vida pessoal. Enfim, eu não percebi que o silêncio que, antes era periódico, em crises de depressão, passou a ser contínuo.

Hoje, ao verificar meus e-mails que também se acumulam aguardando minhas respostas, encontrei um lembrete de aniversário dela. Uma tristeza me invadiu e eu, no fundo, já sabia que ela não estaria lá. Mesmo com esta sensação, acessei o perfil dela no Facebook e verifiquei as mensagens. Poucas pessoas lembraram do aniversário e deixaram mensagens de “parabéns”,  “felicidades”, algumas desejavam que ela tivesse “vida longa”. Eu notei que ela não respondeu a nenhuma e nem sequer curtiu. Verifiquei mais alguns posts e minha suspeita se confirmou. Ela faleceu em junho deste ano, poucos dias depois da postagem que mais parecia um pedido de socorro…

O que mais me chamou a atenção foi o fato de as pessoas postarem mensagens de feliz aniversário, de parabéns, sem sequer perceberem que ela se foi há meses. E eu pergunto: Afinal, o que, de fato, é a Internet? Uma ilusão? Uma farsa? O que parece nos conectar, mas nos afasta, nos separa da realidade dos fatos. As pessoas se calam e não percebemos, não as procuramos, não perguntamos como elas estão, porque se calaram. Continuamos agindo como se tudo estivesse em seu lugar, só que não. Nada mais está como deveria ou imaginamos…

Não é a primeira vez que me deparo com um falecimento real que não foi computado no virtual. Foi assim com dois grandes admiradores do meu trabalho, o Jaorish Teles, de Pernambuco e a Angela Menck que, além de admiradora de meu trabalho, também foi minha colega na Unifesp e tantos outros que se foram. E até hoje ainda há os desatentos deixando mensagens de felicidades e longa vida. Esta é a maior prova da desconexão que estamos vivendo…

São muitos os amigos e leitores que ficaram pelo caminho, faleceram e ninguém notou. E quase sempre o que os levou foi alguma “doença incurável” ou um sentimento triste de rejeição, de estar sozinho(a), de não ter a quem recorrer, instalando depressões e minando vidas. Nestes casos, o que mata não é a doença ou a solidão, o que mais mata é o silêncio, a espera indefinida pela atenção ou compreensão de alguém. É quando o silêncio pode ser fatal.

Eu sempre aconselho que as pessoas busquem o grande amor nelas mesmas. Isso não é egoísmo, é amor-próprio. Óbvio que deve ser dosado. Não se trata de ser narcisista, pensar só em si mesmo(a). É buscar lugares onde se sinta bem, comprar um presente para si mesmo(a), de vez em quando, se dar ao luxo de uma massagem ou de um alimento especial que você gosta ou uma viagem dos sonhos ou, se a verba está pouca, ao menos uma meditação que traz plenitude sem nenhum gasto, basta uma música relaxante e alguns minutos de mergulho em si mesmo(a). Se surgir alguém que possa ser amado, que ótimo, entregue-se a este amor, mas, se não surgir, tudo bem, você já tem a você mesmo(a). Desta forma, uma doença não vai te abater, a solidão não vai te dar motivos para depressão, nada que aconteça tirará seu ânimo e sua força para lutar e vencer. Olhe em volta, você tem uma família, se não tem, deve ter amigos, se os amigos te faltam, você deve ter um animal de estimação, se não tem um animal, não tem vizinhos, não tem ninguém ao seu redor, lembre-se você tem a si mesmo(a). Seja sua melhor companhia, seja seu grande amor. Só assim você poderá amar alguém de verdade. Só quem sabe se amar e buscar plenitude pode saber amar outra pessoa sem se anular.

Dedicado a amiga Suzette Rizzo.